Por Miguel Lucena: Um gambá pode ser um coelho?

Eu reconheço o fedor.

Por Miguel Lucena: Um gambá pode ser um coelho?
Por Miguel Lucena: Um gambá pode ser um coelho?

Por Miguel Lucena - 01/04/2025 17:52:40 | Foto: Divulgação

Thomas Paine, espírito livre do Iluminismo, foi direto ao ponto ao afirmar que é perda de tempo discutir com quem abriu mão da razão. Não com essas palavras, claro — ele era mais cortês. Mas seu pensamento grita nas entrelinhas: quando a lógica é descartada, o diálogo morre. O que resta é o ruído.

Vivemos tempos em que as evidências deixaram de ser critério. A razão, essa velha senhora cansada, é hoje tratada com desprezo, quando não com escárnio. Não importa o que o mundo mostra — importa o que alguém sente. E se alguém entende que um gambá é um coelho, então que assim seja. Tentar mostrar-lhe a diferença é ser acusado de intolerância. Ou, pior, de arrogância intelectual.

Mas um gambá não é um coelho. Não importa o quanto se insista, esperneie ou poste no X (antigo Twitter). A realidade ainda teima em manter sua integridade. E discutir com quem a nega é como tentar ressuscitar um cadáver com aspirina.

A frase parece grotesca, e é mesmo — assim como grotesco é o tempo em que vivemos. Paine não conheceu a era digital, mas sua advertência continua mais viva do que nunca. Há os que acreditam em qualquer coisa, desde que isso sirva a um impulso, um ressentimento ou uma narrativa. O argumento deixou de ser ponte e virou trincheira.

Diante disso, cabe ao espírito livre a escolha: gastar pólvora em chimango ou preservar a lucidez. Escolho a segunda. E se alguém quiser chamar gambá de coelho, que chame. Eu, pelo menos, ainda reconheço o fedor.

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