EUA e Europa compram madeira do Pará com sinais de ilegalidade, inclusive ipês

EUA e Europa compram madeira do Pará com sinais de ilegalidade, inclusive ipês, mostra estudo

EUA e Europa compram madeira do Pará com sinais de ilegalidade, inclusive ipês
EUA e Europa compram madeira do Pará com sinais de ilegalidade, inclusive ipês

João Gabriel, Brasília, Df (folhapress) - 03/04/2025 11:07:13 | Foto: Reprodução Greenpeace

Um estudo da Agência de Investigação Ambiental (EIA, em inglês) identificou 53 mil m³ de madeira do Pará, na amazônia, com indícios de ilegalidade em escala industrial vendida para países como Estados Unidos, França e Bélgica, além do próprio Brasil.

A quantidade de madeira extraída é equivalente a aproximadamente 2.000 contêineres e foi processada por 19 serrarias, negociada por 16 exportadoras e comprada por 30 diferentes empresas no exterior. Esse montante se refere ao período entre 2019 e 2024.

Ao final deste processo mais de 1.500 m³ foram exportados para nove diferentes países. Entre as espécies, estão ipê-roxo, ipê-amarelo, itaúba, cumaru, maçaranduba e angelim-pedra.

A Folha de S.Paulo procurou as principais empresas identificadas na investigação da EIA, mas não teve resposta até a publicação desta reportagem.

A reportagem também questionou o Ibama (Instituto Brasileiro dos Recursos Naturais Renováveis), a PF (Polícia Federal) e a Secretaria de Meio Ambiente do Estado do Pará -órgãos responsáveis pela fiscalização dessa cadeia-, mas eles não se posicionaram.

A capital paraense, Belém, será a sede da COP30, a conferência sobre clima da ONU (Organização das Nações Unidas). O estado é um dos mais destruídos por crimes ambientais, como desmatamento, garimpo e grilagem de terra.

"[A investigação] com madeireiros por todo o Pará revela uma cultura de corrupção e fraude que mancha o setor, aumentando o risco para companhias que buscam madeira da região", diz o relatório.

Das 19 serrarias identificadas no estudo, 12 já foram multadas pelo Ibama por crimes relacionados à madeira; das 16 exportadoras, 14.

O desmatamento explodiu durante o governo de Jair Bolsonaro (PL). A derrubada de florestas representa para o Brasil a maior fonte de emissão de gás carbônico (cerca de 80% do total nacional), sendo também o maior vetor do aquecimento global do país.

O ex-ministro do meio ambiente de Bolsonaro, Ricardo Salles (hoje deputado pelo Novo de São Paulo), é investigado pelo Supremo Tribunal Federal por contrabando de madeira.

Desde de 2023, início do governo Lula (PT), o Ministério do Meio Ambiente e o Ibama concentraram esforços no combate à destruição ilegal da floresta. Na Amazônia, o índice caiu drasticamente e, no último fevereiro, registrou o valor mais baixo de toda a série histórica para o mês (desde 2016), segundo dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisa Espacial).

Assim como o instituto, a investigação teve como uma de suas bases as imagens de satélite.

A EIA identificou áreas no Pará que servem para a extração de madeira, mas que, pelos registros fotográficos, não tinham nenhum ou quase nenhum sinal de atividade -técnica parecida à utilizada pelo Ibama.

O relatório identificou, por exemplo, uma fazenda na cidade de Anapu (PA), com autorização para extrair pouco mais de 1.000 m³ de madeira -quase 200 árvores-, incluindo ipês-amarelos.

O plano de manejo da área incluía a construção de uma estrada principal e vicinais, além de um galpão para estocagem. Pelas imagens de satélite, no entanto, não há sinal de nada disso.

Outro indício de ilegalidade identificado pela investigação é que o plano de manejo alegava que a área tinha cerca de 4 m³ de ipê-amarelo por hectare, quando a presença desta espécie, segundo estudos, é de até 0,5 m³ por hectare.

Madeira extraída desta fazenda, inclusive ipês, foi vendida para empresas em Miami, nos Estados Unidos, e em Portugal.

Documentos de transporte e venda de madeira analisados pela investigação apontam ainda outra forma que os fazendeiros tentam driblar a lei.

Tanto nesse caso, como em uma outra fazenda situada em Uruará (PA), a quantidade de árvores derrubadas é praticamente idêntica à quantidade transportada. A autorização contemplava 1.226 m³, os registros falam em 1.225 m³ transportados.

A proximidade entre os números é implausível, aponta a investigação, porque a estimativa de extração é feita com as árvores em pé. Depois de derrubadas, o volume real costuma ser de 10% a 20% menor.

Neste caso, a madeira, que inclui ipê-roxo, foi parar, por exemplo, em Charleston, nos Estados Unidos.

No município de Placas, a EIA identificou que todo o trajeto do material aconteceu normalmente, a despeito de autuações do Ibama.

A investigação aponta uma fazenda que foi embargada pelo Ibama em 2019, o que deveria levar a secretaria de Meio Ambiente do Pará a barrar a comercialização de madeira extraída da área.

Mesmo assim, os registros consultados pela EIA mostram que pelo menos seis serrarias receberam matéria prima do local -cinco das quais foram várias vezes multadas pelo Ibama posteriormente em outras situações.

Nem a origem em área embargada, nem as autuações por outros crimes, impediram que madeira da fazenda seguisse rodando o mercado pelo menos até 2024, passando por exportadoras brasileiras e depois vendida para Estados Unidos, Bélgica, França e Dinamarca.

Ainda neste caso, a EIA mostra que, ao invés de não explorar nada de sua área, a madeireira explorou um pouco, para tentar dar ar de legalidade à atividade.

Os registros apontam que foram transportados para fora do local de extração cerca de 23 mil m³ de madeira, quase a totalidade dos 24 mil m³ autorizados. O satélite, porém, mostra que menos de 15% da área da propriedade teve sinais de atividade humana.

O estudo conclui com uma série de recomendações às autoridades brasileiras e estrangeiras.

"[Há indicativo de] violações do Lacey Act dos Estados Unidos e dos requerimentos e proibições de importação da regulamentação madeireira da União Europeia" diz a EIA, em referência às respectivas legislações que deveriam impedir a importação de material ilegal.

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