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Dia do cão-guia ressalta importância da atuação dos cães junto a pessoas cegas

Dia do cão-guia ressalta importância da atuação dos cães junto a pessoas cegasFoto: Reprodução Estadão

Cães-guias ajudam na autonomia de cegos

Estadão Conteúdo - 29/04/2021 - 00:06:44

No Brasil, mais de 7 milhões de pessoas apresentam alguma deficiência visual, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Deste total, cerca de 580 mil são completamente cegas e mais de 6,5 milhões apresentam baixa visão, seja por consequências congênitas ou adquiridas ao longo da vida.

A rotina dessas pessoas é repleta de desafios, principalmente com relação à mobilidade: barreiras de acessibilidade presentes nos espaços urbanos, com as difíceis condições de locomoção pelas calçadas cheias de desníveis e buracos, placas no meio do caminho — muitas vezes na altura da cabeça, rampas inadequadas, travessias perigosas, carros estacionados irregularmente, entre tantos outros obstáculos. Para vencer esses desafios, é preciso que eles superem os limites dos olhos. Sua visão está na ponta dos dedos ou de uma bengala, nos demais sentidos que normalmente são mais apurados e até mesmo nos olhos de outra pessoa. Ou de outro companheiro, tão especial que cumpre a missão de conduzi-los por todos os caminhos: o cão-guia.

O cão treinado para ser guia é um facilitador no processo de inclusão da pessoa com deficiência visual. Ele é responsável por oferecer confiança, segurança e promover a autonomia e independência. Além disso, causa interação social e, consequentemente, eleva a autoestima do usuário. Seu papel na vida da pessoa com deficiência visual é tão transformador que ele ganhou uma data mundial em sua homenagem: o Dia Internacional do Cão-Guia , comemorado na última quarta-feira de abril, que neste ano é dia 28.

Visita ao Instituto Magnus

Para entender um pouquinho como é a vida de uma pessoa com cegueira completa ou parcial, o Instituto Magnus promove, durante uma visita ao centro de treinamento de cães-guia, um tour no escuro, cheio de obstáculos.

São oferecidos óculos para impedir a visão do visitante e em seguida passa-se por uma porta, que dá início a um caminho cheio de obstáculos. Completamente no escuro, é impossível utilizar nosso principal sentido: a visão. Chutei cones, tropiquei em pisos, passei por cordas, tudo em passos de formiguinha, morrendo de medo do que poderia vir a frente.

Ao sair dessa vivência, só uma coisa vinha a minha cabeça: como e possível uma pessoa com perda visual se locomover sozinha em uma cidade cheira de postes, buracos, degraus, etc?

Fiquei imaginando como seria se eu perdesse a visão, parcialmente ou totalmente, do nada. E precisasse enfrentar todos esses desafios. Com certeza ter alguém ao lado que pudesse avisar e ajudar a desviar desses obstáculos seria de uma enorme ajuda. Ao invés de dar passos de formiguinha, poderia andar com mais segurança e autonomia.

Ao final da visita no Instituto, conheci Baduska e Murilo. Murilo Delgado nasceu com baixa visão e foi perdendo ao longo dos anos, tendo apenas 5% de visão no olho direito. Há dois anos e meio, recebeu o cão da raça labrador Baduska e diz que ela é um divisor de águas em sua vida. “Ela está comigo em todos os lugares, sempre do meu lado: estou trabalhando e ela está junto, vou para a faculdade e ela vai junto, se vou no banheiro ela deita na porta, se estou dormindo, ela está dormindo do meu lado, me guia por todos os caminhos. Eu brinco que hoje meu nome não é mais Murilo, é Murilo da Baduska”, diverte-se.

Ao me deparar com aquele lindo labrador, fiz a coisa mais errada do mundo: sai correndo para abraçar a cadela. Murilo me explicou que esse é o pior comportamento que uma pessoa pode ter perante um cão-guia em serviço. É nessa hora que o cachorro pode se distrair e colocar em risco a vida do humano.

Raça do cão-guia

Não é qualquer cão, de qualquer raça que pode se tornar cão-guia. Muitas pessoas questionam por que não usar cães resgatados. O investimento em um cão em formação é gigantesco. Por isso, é de extrema importância conhecer a parte genética para minimizar possíveis doenças. O que não é possível sem que haja uma boa seleção de padriadores.

Como um cão se torna cão-guia

Para se tornar um cão-guia, o animal passa por um rigoroso e intenso treinamento. No qual são trabalhadas essas distrações, inclusive. O processo para que o cão esteja apto a ser guia envolve um trabalho longo e intenso e o custo na sua formação é bastante elevado. Para possibilitar que mais pessoas tenham acesso a um animal que vai melhorar sua vida, o Instituto Magnus realiza um projeto muito especial: treina e doa cães para serem os olhos de pessoas com deficiência visual. Desde sua inauguração, em setembro de 2018, já doou 30 cães para todo o Brasil. Atualmente, existem cerca de 500 inscritos à espera por um cão-guia. A capacidade é para treinar e doar 64 cães-guias por ano.

Não é possível comprar um cão-guia. Isso porque é muito importante que o cão tenha o perfil adequado para seu condutor. É como se fosse um match. Por isso, mesmo que uma pessoa esteja no topo da fila de espera, pode não ser o primeiro a receber o cão-guia.

“O trabalho realizado pelo instituto é sem fins lucrativos. Nossa intenção é contribuir com a inclusão social e promover a autonomia das pessoas com deficiência visual por meio da utilização do cão de assistência”, destaca o gerente geral do Instituto Magnus, Thiago Pereira.

São quase dois anos de treinamento para que um cão esteja apto ao trabalho. Durante um ano ele fica dentro do Instituto. No ano seguinte, ele é acolhido por uma família socializadora. O papel dos socializadores é expor o animal às mais diversas situações do cotidiano para promover seu desenvolvimento e acostumá-lo à rotina do dia-a-dia. Além, é claro, de dar a ele tempo e amor.

O desafio dessas famílias é saber que depois desse período, o animal vai seguir sua missão. “Para ser socializadora, a família deve entender que a causa de mudar a vida do deficiente visual é ainda maior do que o amor que ela tem pelo animal e que ele tem que seguir sua jornada, pois alguém que realmente precisa estará esperando por ele”, justifica Elizabeth Chagas, socializadora do programa.

Depois de voltarem das casas das famílias, os cães ainda ficam cerca de cinco meses em treinamento no instituto, para se tornarem aptos a serem guias: aprendem a seguir comandos e desviar de obstáculos. Após formados, poderão ser doados para transformar a vida de pessoas com deficiência visual de todo o Brasil.

Essa parte da família socializadora é um dos desafios do processo. São poucas aquelas que se disponibilizam para acolher e trabalhar um futuro cão-guia. Os socializadores não têm custo nenhum para receber um cão em sua casa, pois todas as necessidades médicas e de treinamento são de responsabilidade do Instituto Magnus. Os voluntários precisam apenas:

– residir na região de Sorocaba, para que o animal possa contar com assistência veterinária de clínicas parceiras;

– acolher o cão por cerca de um ano e se comprometer a levá-lo para conhecer os mais diversos locais;

– ter tempo e disposição para realizar os treinos e rotina do filhote.

Os interessados em serem socializadores ou terem acesso a um cão-guia podem entrar em contato com o Instituto Magnus pelo e-mail contato@institutomagnus.org.

Outro Instituto que está comemorando a data é o IRIS, Instituto de Responsabilidade e Inclusão Social. Já foram mais de 40 cães-guias entregues para pessoas com deficiência visual no país. O instituto é responsável por treinar e doar cães-guias para cegos contemplados em seu programa de doação.

“Poder contribuir para aumentar a inclusão social dos cegos é muito gratificante porquê estamos ampliando o universo de atuação destes usuários em todos os aspectos, contribuindo muito para sua qualidade de vida”, afirmou José dos Santos Filho, presidente e cofundador do IRIS.

Desde seu nascimento até a entrega do cão-guia, o processo leva em média 18 meses para ser concluído e cada cão-guia custa ao IRIS aproximadamente 50 mil reais. “Hoje, como já temos a expertise do processo de treinamento e a experiência, conseguimos preparar um cão-guia por este custo, mas gostaríamos de ampliar estes números”, acrescentou o presidente. Atualmente, a lista de espera por um cão-guia no Instituto tem aproximadamente 3 mil nomes e todo o custo de treinamento é absorvido pelo IRIS.

Um fator de extrema relevância é a conscientização por parte da sociedade da importância do cão-guia para o usuário. “Infelizmente ainda temos que lidar com constrangimentos em alguns estabelecimentos comerciais que barram ou hostilizam a entrada de cães-guias, isso é vexatório para o usuário e muito triste para todos nós, por isso o IRIS luta por essa causa e continuará lutando”, enfatizou o presidente. O IRIS lembra que a lei 11.126/2005 garante o acesso de todo cão-guia, devidamente treinado e identificado, em qualquer local de uso público e continuará advogando pela valorização dos direitos humanos.

A melhor ferramenta ainda é a informação. Seja para aumentar a autonomia da pessoa com deficiência visual, seja para difundir a importância de um cão-guia.

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