Projetos não concluídos de Oscar Niemeyer compõem nova exposição na Itália

A relação do arquiteto Oscar Niemeyer (1907-2012) com a Itália começou no fim dos anos 1960.

Projetos não concluídos de Oscar Niemeyer compõem nova exposição na Itália
Projetos não concluídos de Oscar Niemeyer compõem nova exposição na Itália

Michele Oliveira, Milão, Itália (folhapress) - 04/04/2025 15:09:32 | Foto: Ricardo Stuckert/PR

Uma versão do Palácio Itamaraty nos arredores de Milão. Um prelúdio do Ciep (Centro Integrado de Educação Pública) perto de Turim. Uma alusão ao "museu do olho" na Costa Amalfitana. Uma astronave de concreto, que, desde o ano passado, hospeda uma fábrica de satélites.

A relação do arquiteto Oscar Niemeyer (1907-2012) com a Itália começou no fim dos anos 1960 e resultou em quatro obras construídas no país, ao longo de mais de 40 anos. Em três delas, é possível identificar elementos presentes em projetos do modernista no Brasil.

Pouco conhecidos são os outros nove desenhos feitos por Niemeyer que não saíram do papel, como um teatro, um estádio, um centro empresarial e uma ideia de ponte coberta sobre o Grande Canal de Veneza.

Com fotos e desenhos, o conjunto dos 13 projetos de Niemeyer para a Itália será exibido, pela primeira vez, na exposição "Modernismo Audacioso", apresentada pela galeria Etel na Semana de Design de Milão, entre 8 e 13 de abril.

O material é resultado de uma pesquisa iniciada há quatro anos pelo arquiteto e escritor Francesco Perrotta-Bosch. Durante uma temporada de estudos em Veneza, ele descobriu desenhos do Niemeyer que tinham sido guardados por colaboradores italianos do brasileiro. A partir disso, fez uma busca nos arquivos da Fundação Oscar Niemeyer, no Rio, onde localizou registros desses projetos e outras surpresas.

Foram encontrados desenhos considerados raros para o público, como para o World Trade Center de Milão, detalhado em 1974 em um caderno de 30 páginas, o centro de desenvolvimento automotivo da Idea (1991) e um estádio (1986), ambos em Turim. Tem ainda um complexo multifuncional em Este (1988), na província de Pádua, e uma proposta de anexo para a sede da Mondadori (1988), perto de Milão.

"De alguns projetos não conhecemos publicações em revistas ou livros. Até aparecem citados com uma linha em listas de obras do Niemeyer, mas sem informações", diz Perrotta-Bosch, curador da exposição. Estima-se que o arquiteto tenha produzido cerca de 500 projetos, entre executados e não executados.

"A ideia é mostrar essa cartografia nunca feita na Itália de forma completa e aprofundada", afirma Lissa Carmona, curadora da coleção Etel de mobiliário e fundadora da Casa Zalszupin, em São Paulo. A mostra acontece na galeria que a marca mantém em Milão. "Certamente haverá desdobramentos futuros, como uma exposição maior e a publicação de um livro."
Primeira da lista a ser realizada, a sede do grupo editorial Mondadori, inaugurada em 1975 na área metropolitana de Milão, foi encomendada pelo então presidente da companhia, Giorgio Mondadori, para reproduzir os arcos do Itamaraty. Niemeyer se ateve ao desejo do cliente, mas a versão final recebeu espaçamento variado entre as colunas, diferente da equidistância do original em Brasília.

"A Mondadori colocou desafios estruturais até maiores do que o Itamaraty, que tem o bloco coberto pelo vidro assentado ao chão. Na Mondadori, esse bloco é inteiro suspenso pela cobertura", diz Perrotta-Bosch. Na exposição, serão exibidos o primeiro projeto apresentado, com uma planta curvilínea, estilo Copan, que acabou preterido, e um anexo nunca executado.

A repercussão internacional da obra foi imediata e ainda hoje é o projeto mais conhecido de Niemeyer na Itália -controlada pelos filhos do ex-premiê Silvio Berlusconi, morto em 2023, a empresa continua a ocupar o prédio icônico do brasileiro. "É a obra que eu tenho na Europa de que eu gosto mais", disse o arquiteto em 2007.

O Palazzo Mondadori atraiu a atenção de outras duas empresas italianas, que buscaram o modernista para criar edifícios que fossem igualmente inovadores. Para a Fata, indústria de maquinário automotivo na área de Turim, saiu um edifício em 1981 que mantém a lógica dos arcos, mas com menos colunas. Um projeto que antecipa, em termos estruturais, aquele do Ciep, inaugurado logo depois no Rio.

A fábrica de papel Cartiere Burgo foi outra que pediu uma sede ao arquiteto, também perto de Turim. O resultado é uma planta circular que tem ao centro uma estrutura com arcos que lembra uma nave espacial. Concluído em 1981, o edifício é, desde 2024, propriedade da Argotec, que fabrica satélites.

Último da lista a ser realizado, o auditório de Ravello, na Costa Amalfitana, foi entregue à prefeitura em 2010, com uma forma arredondada que pode ser associada ao "olho" do Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba, finalizado em 2002. "Com as centenas de projetos que desenvolve, ele acaba criando um dicionário de formas que aplica e transforma ligeiramente em diferentes projetos", diz Perrotta-Bosch.

Um dos momentos mais sublimes da relação com a Itália são os desenhos de uma sugestão para a ponte dell'Accademia, que atravessa o canal Grande, em Veneza. Em 1985, o brasileiro propõe uma passarela coberta. "Branca, leve e graciosa como o concreto permite. Coberta, convidando os visitantes a parar um pouco e, sobre o canal, sentirem melhor como é bela essa cidade", escreveu Niemeyer junto ao desenho.

Segundo o curador, a ideia foi uma resposta ao convite do historiador Lionello Puppi, organizador de uma mostra para debater possibilidades para a ponte que já estava em reconstrução. O pedido a Niemeyer foi feito sem que houvesse expectativa de realização.

Completam o elenco de 13 projetos dois centros para eventos não construídos, encomendados por administrações municipais. Em Pádua, o Palazzo Congressi foi desenhado em 1988 como uma sala coberta, sobre a qual é disposto um anfiteatro a céu aberto. Em Vicenza, foi apresentado em 1978 um teatro em meio a uma praça rebaixada.

Além das reproduções de desenhos mantidos pela fundação, alguns inéditos, a exposição será composta por fotografias de obras construídas na Itália, de Luisa Porta. E por móveis criados pelo arquiteto, integrante da coleção Etel, que fabrica com exclusividade peças como a cadeira de balanço Rio e prepara o lançamento da reedição da chaise Praiana. "Você olha um móvel de perfil e olha o desenho na parede e é o mesmo traço, a mesma forma de pensar", diz Lissa Carmona.

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