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Brasil - Brasília - Distrito Federal - 22 de maio de 2018

São Roque de Minas: Um Paraíso no Sudoeste de Minas Gerais

São Roque de Minas: Um Paraíso no Sudoeste de Minas Gerais

No interior de Minas Gerais, junto à nascente do rio São Francisco, cenários encantadores, queijos maravilhosos e a autêntica hospitalidade mineira

Por: Johnny Mazzilli - Blog.clubepaladar / Foto: Pixabay - 04/05/2018 - 20:31:57

Após uma parada estratégica na pequena e charmosa cidade de Cássia (MG), seguimos para São Roque de Minas, em busca do queijo Canastra e das belezas naturais da região. Chegamos lá em uma tarde tranquila e céu cinza chumbo, com nesgas de céu aberto por onde entrava uma luz quente.

Com apenas 7.000 habitantes, São Roque mantém um clima rural e tradições da cultura local, como a arquitetura do século 19, os muros de pedra e a produção do queijo Canastra. A cidade foi, no passado, território de ferozes índios Cataguazes, dizimados pelos brancos no século 17. Depois, vieram os primeiros quilombos, formados por escravos fugitivos, sendo o mais conhecido o pai Ignácio, que se dizia tão grande como o de Palmares. Os negros aproveitaram a abundância de água e as terras férteis para viver da agricultura, da pesca e da caça, resistindo por décadas na região. Porém, acabaram vencidos por Diogo Bueno da Fonseca, em meados do século 18. Em 1819, o naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire chegou à Serra da Canastra e lá ficou por quase cinco anos, pesquisando a vida na região. Encontrou uma população formada por brancos e mestiços vindos dos antigos centros de mineração, os primeiros habitantes de um pequeno povoado formado junto à capela de São Roque. Quase um século depois, em 1938, São Roque virou cidade e trocou seu nome para Guia Lopes, em homenagem a José Francisco Lopes, um guia das tropas brasileiras da Guerra do Paraguai. Em 1962, a cidade retomou o nome original.

A vida em São Roque é tranquila e se baseia na produção de queijo e na atividade agrícola, como o café, cujo cultivo cresce rapidamente. Seu produto mais famoso é o queijo da Canastra, um dos mais conhecidos do Brasil. Além de São Roque, outros sete municípios da região são considerados produtores oficiais do célebre produto, cada vez mais famoso e cobiçado nos grandes centros.

Em nossa primeira investida, visitamos o Parque Nacional da Serra da Canastra. Criado em 1972, ele tem 71.525 hectares espalhados por três municípios: São Roque de Minas, Sacramento e Delfinópolis, no sudoeste de Minas Gerais. A área tem dois maciços montanhosos: a Serra da Canastra e a Serra das Sete Voltas, com o vale dos Cândidos dividindo ambos. A Canastra é um berçário de rios, na divisa entre as bacias hidrográficas dos rios Paraná e São Francisco, com altitudes que variam entre 900 metros e 1.496 metros. A vegetação predominante são as manchas de cerrado e matas ciliares. O relevo é acidentado, com campos de altitude e grandes paredões rochosos, formando uma paisagem de ampla visão panorâmica, pontuada por muitas cachoeiras, das quais a mais alta e imponente é a Casca D’Anta, de 186 metros de altura. O relevo e a vegetação favorecem a observação de animais selvagens, como o tamanduá-bandeira, o lobo-guará, a ema e o veado-campeiro. Cada vez mais, pesquisadores encontram na vegetação do parque plantas com propriedades terapêuticas, muitas delas utilizadas há séculos por índios e antigos habitantes, como o Vinhático e o Barbatimão.

Seguimos para a parte alta do parque, onde se encontra a nascente histórica do rio São Francisco, diferente de sua nascente geográfica. “Durante muitos anos, acreditou- se que aqui nascia o rio São Francisco, mas estudos mais recentes mostraram que o rio Samburá, antes tido como um de seus primeiros e mais importantes afluentes, é, na verdade, o rio que dá origem ao São Francisco. Por esse motivo, existe hoje a nascente histórica e a nascente geográfica do mais famoso rio brasileiro”, explica Marcelo Montagno, nosso didático guia, um paulistano que se mudou para São Roque de Minas há 17 anos, após viver dois nos Estados Unidos. Em São Roque, ele aprofundou seus conhecimentos sobre a natureza da região e hoje é um guia requisitado. Conhece o parque como poucos e nos deu uma longa e aprazível aula sobre a geologia, a geografia e a vida selvagem da Canastra. Além de suas funções como guia independente, ele também trabalha com o Cenap (Centro Nacional de Preservação), monitorando o lobo-guará da Canastra.

De volta a São Roque, seguimos rumo à Casca D’Anta para conhecer a grande cachoeira pela parte de baixo. A caminhada é breve, com pouco mais de dois quilômetros, num calor de rachar, em uma trilha espaçosa e sombreada. Pelo caminho, um banho nas águas rasas e cristalinas do rio. Rapidamente chegamos ao fim, aos pés da Casca D’Anta. Paramos a uma distância de uns 60 metros, recebendo um fortíssimo borrifo que nos deixou ensopados, resultado do deslocamento do ar causado pela queda d’água.

No segundo dia, nos dedicamos integralmente aos maravilhosos queijos Canastra, o principal motivo de nossa viagem. A manhã inteira foi reservada para uma conversa maravilhosa com o eloquente João Carlos Leite, o Joãozinho, o maior defensor e propagador do queijo da Canastra e o personagem mais insólito do cenário do queijo brasileiro. Mais que um competente produtor e um dos mais ardorosos defensores da produção de queijos de leite cru, ele é o artífice da sobrevivência e da recuperação econômica e cultural de São Roque de Minas, que em certa época esteve condenada ao desaparecimento. Houve um tempo em que a cidade passou por forte declínio. Toda a atividade econômica havia migrado para os municípios vizinhos e os que deixavam a cidade para estudar jamais retornavam. Foi quando Joãozinho e um grupo de 22 produtores se uniram e criaram, em 1991, o Sicoob Saromcred, uma instituição financeira cujo objetivo é servir a comunidade. De lá para cá a cooperativa cresceu exponencialmente, atendendo pequenos produtores, comerciantes, profissionais liberais, aposentados e correntistas. A cooperativa empresta dinheiro a juros muito inferiores aos do mercado, investe na educação infantil, na fixação do homem no campo e já se expandiu para outras sete cidades vizinhas, onde atua sempre da mesma forma, com foco nas necessidades da comunidade. Um caso de sucesso absoluto e um método a ser copiado e aprimorado Brasil adentro.

Joãozinho nos explicou longamente a história do queijo desde o Neolítico até dezembro de 2017. Segundo ele, existem em torno de 800 pequenos queijeiros, que produzem, em média, duas toneladas da iguaria por dia, espalhados pelas oito cidades que a produzem. A altitude e o clima são determinantes para as características do queijo da Canastra. Para a fabricação de um quilo do Canastra, são utilizados de 10 litros a 12 litros de leite, coalho e fermento lácteo natural, tirado do próprio soro. Depois de pronto, o queijo matura por 22 dias, um processo considerado importante para agregar qualidade ao produto. Há produtores que maturam parte de seus queijos por mais tempo, três meses, seis meses e até um ano, obtendo como resultado queijos mais secos e estruturados, muito cobiçados.

Da fazenda de Joãozinho fizemos uma breve passagem pelo produtor Claudinho, que tem, em sua queijaria, um mofo muito peculiar, nativo do local, que dá ao produto uma aparência rugosa e branca, distinta da maioria dos queijos produzidos na cidade, que raramente apresentam mofo. Seu produto poderia ser classificado como queijo Canastra de mofo branco, embora os obtusos órgãos de fiscalização não autorizem o raro mofo no queijo – que, por sinal, jamais fez mal a ninguém.

Do Claudinho seguimos para a chácara do lendário Zé Mário, um dos mais antigos produtores de queijo da cidade. Bem-humorado e piadista, Zé Mário nos recebeu com seus queijos, cafezinho, pão de queijo Canastra e uma enorme simpatia. Ainda rindo, deixamos a chácara dele e seguimos para nossa última visita ao produtor Guilherme Ferreira, do Capim Canastra. Guilherme é um jovem produtor da nova geração, que está finalizando a construção de um restaurante em sua propriedade. Lá, ele preparou saborosíssimos pastéis de queijo Canastra com folhas de ora-pro-nóbis, arbusto típico de Minas Gerais, que degustamos com um bom vinho. Um de seus queijos recebeu, em 2015, medalha de prata na Mondial du Fromage de Tours, na França. Guilherme contou sobre a premiação com indisfarçável orgulho, enquanto nos explicava, de forma entusiástica, detalhes do restaurante que breve entrará em operação.

E foi assim, em uma noite chuvosa, entre pasteizinhos e goles de vinho tinto, que encerramos nossa primeira investida em Minas Gerais. Em breve, o Clube Paladar visitará a cidade de Capitólio, com seu enorme lago, belíssimos cânions e cachoeiras de águas cristalinas. Mas isso já é outra história.

Onde Ficar: Pousada Barcelos Onde Comer Cozinha Original Sabores da Canastra O Que Levar Roupas leves e de banho, protetor solar, repelente, óculos de sol, tênis macio para caminhada e um bom sortimento de vinhos brancos e tinto para comer com os belos queijos da região.

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