Limonada, chocolate & lições de um empreendedorismo tardio

Nesta coluna semanal, tomo a liberdade de utilizar minha experiência pessoal para exemplificar as reflexões, ainda que tardias, de um cientista empreendedor.

Limonada, chocolate & lições de um empreendedorismo tardio
Limonada, chocolate & lições de um empreendedorismo tardio

Por Dr. Bernardo Petriz - 18/09/2023 08:28:31 | Foto: Dr. Bernardo Petriz

Empreender não é uma arte; pelo contrário, é uma ciência fundamentada, ou pelo menos assim deveria ser entendido. Nesta coluna semanal, tomo a liberdade de utilizar minha experiência pessoal para exemplificar as reflexões, ainda que tardias, de um cientista empreendedor.

Provavelmente, você já assistiu essa “cena” em algum filme ambientado nos Estados Unidos, onde crianças vendem limonada gelada em uma barraca improvisada na frente de casa. Os compradores são, em sua maioria, vizinhos e até mesmo os próprios pais que incentivam a iniciativa. Essa cena comum, carregada de enorme simbolismo, está repleta de valiosos princípios de mercado, começando pela lei da oferta e da procura.

Naquele pequeno espaço improvisado, as crianças provavelmente aprendem que dias ensolarados e quentes podem influenciar o volume de vendas, que as pessoas estão dispostas a pagar um determinado valor por um copo de suco e que, ao final do dia, o valor gasto para montar a barraca e os insumos utilizados para fazer o suco deve ser menor do que o valor arrecadado com as vendas. Tenho certeza de que administradores e economistas conseguem listar uma infinidade de outras lições envolvidas.

Outra cena comum, frequentemente retratada nos filmes da antiga sessão da tarde, é a de jovens integrantes de algum time esportivo escolar que se dedicam a lavar carros em um lava-jato local para arrecadar dinheiro visando alcançar um objetivo coletivo, como custear uma viagem para disputar um campeonato em outra cidade ou um baile de formatura. Essas diversas variações do tema se repetem de inúmeras formas, refletindo uma cultura empreendedora enraizada naquela sociedade.

Aos doze anos de idade, morando nos Estados Unidos na época, me vi inserido em um contexto semelhante. O time de futebol juvenil do qual eu e meu irmão fazíamos parte estava arrecadando fundos para a compra de uniformes esportivos. Em parceria com uma rede de supermercados local, o técnico do time conseguiu um lote de maletas repletas de guloseimas de todos os tipos. A ideia era simples: cada maleta continha o equivalente a 20 dólares em balas e chocolates, e o valor de revenda sugerido era o dobro. Cada criança deveria vender as balas e chocolates em sua escola local, e ao final de um mês, o lucro seria revertido para a compra do material esportivo.

Aquela, sem dúvida, foi minha primeira experiência com vendas, se é que posso dizer que realmente fiz alguma. Na verdade, o comércio ou o processo de venda não fazia parte da minha cultura familiar nem da minha vivência pessoal. Lembro claramente de não me sentir confortável levando aquela enorme maleta para a escola; era simplesmente algo não natural para mim. Os dias foram passando, e eu não fiz nenhuma venda, mas a maleta foi esvaziando dia-pós-dia... Havia pouca maturidade para estar envolvido em um empreendimento com balas e chocolates, e eu ainda não tinha compreendido a responsabilidade envolvida naquele processo. Aos doze anos, provavelmente fiz minha primeira dívida.

Anos se passaram sem que aquele episódio tivesse gerado qualquer reflexão além de uma memória de infância. Ao retornar para o Brasil ainda em idade escolar, segui com meus estudos no ensino médio e posteriormente com minha formação universitária sem ter tido contato algum com alguma disciplina ou experiência prática que estimulasse as habilidades ou qualificações necessárias para uma gestão financeira ou direcionadas ao empreendedorismo na minha área de formação. Pelo contrário, cresci com a crença de que o comércio é um dom pessoal ou algo herdado por um tino familiar. Eu não poderia estar mais enganado.

Refletindo sobre essa experiência da minha juventude, acredito que o desconforto que senti na época ao carregar aquela maleta estava relacionado à minha não familiarização com a cultura da venda, ou com a responsabilidade de levantar fundos para um objetivo próprio ou coletivo, algo aparentemente incentivado desde a infância naquele país.

Lembro de ter pensado: por que não simplesmente comprar os uniformes e repassar a conta aos nossos pais? A obviedade da lição não estava clara para mim aos doze anos de idade. Aquela pequena maleta carregava muito mais do que chocolates; nela estava a responsabilidade de gerar receita e, junto com ela, todas as competências e atitudes necessárias para compreender que nada é de graça, inclusive os uniformes esportivos. Aquela tarefa deixava claro que a responsabilidade de adquirir aquele material era unicamente e exclusivamente dos que iriam vesti-los.


Arrisco dizer que esse meu primeiro fracasso contábil, recheado de glicose, me ensinou uma valiosa lição sobre a importância de estimular desde cedo as grandes responsabilidades e aprendizados, sendo o empreendedorismo um deles.

Bernardo Petriz é professor universitário e pesquisador na área da Ciência do Exercício & Saúde. Possui mestrado em Educação Física e doutorado em Ciências Genômicas e Biotecnologia. É autor de um livro: "Fisiologia Molecular do Exercício" e idealizador do Ciência para Saúde Podcast no YouTube.

Instagram: @bernardopetriz / @cienciaprasaude Youtube: https://www.youtube.com/@Cienciaprasaude

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