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Brasil - Brasília - Distrito Federal - 20 de fevereiro de 2018

Qualificação acadêmica em agro

Qualificação acadêmica em agro

Faculdade CNA forma gestores para trabalhar no setor, que hoje tem participação de 23,5% no PIB do país. Instituição oferece 40 vagas com bolsa integral para estudantes com notas a partir de 550 no Enem

Por Marlene Gomes - Correio Braziliensse - 05/02/2018 - 07:58:35

"Hoje o campo é tecnológico e se busca uma maior eficiência na produção. Estamos saindo dessa cultura de que trabalhar no campo é uma atividade informal, realizada de qualquer jeito e sem estudos preliminares" Águeda Recio Y Alvarez Faúla, gestora em agronegócio

Ronie dos Reis Santos vai tentar vaga via vestibular, que está agendado para esta quarta-feira, pois ele não obteve a pontuação mínima ( Ed Alves/CB/D.A Press)
Ronie dos Reis Santos vai tentar vaga via vestibular, que está agendado para esta quarta-feira, pois ele não obteve a pontuação mínima

Engana-se quem pensa que, para trabalhar no campo, não é necessário uma boa formação. Quando se trata de mercado de trabalho no agronegócio, aproveitar uma boa oportunidade de emprego passa pela formação acadêmica qualificada e capacidade técnica para gerenciamento. Para formar mão de obra adequada às necessidades do setor, responsável por uma participação de 23,5% no PIB brasileiro, a Faculdade CNA oferece 40 vagas com bolsa integral para o curso superior em tecnologia de gestão do agronegócio. As bolsas são destinadas aos estudantes que tiveram notas a partir de 550 pontos no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) nos últimos três anos.

As bolsas 100% integral, para os três anos de duração do curso, são ofertadas pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), entidade ligada à Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária (CNA). Primeira instituição de ensino do país voltada exclusivamente para o agronegócio, a faculdade CNA recebeu conceito 4, numa escala de 1 a 5, e está entre as melhores instituições de ensino do Brasil, de acordo com o ranking divulgado pelo Ministério da Educação. O curso é presencial, realizado em Brasília e, para este ano, as inscrições podem ser feitas até 10 de fevereiro, pelo site www.faculdadecna.com.br.

O candidato que não participou do Enem ou não alcançou a pontuação mínima no exame pode optar pelo processo seletivo pré-agendado. Essa é a situação de Ronie dos Reis Santos, que obteve 540 pontos na última prova do Enem, e participa do vestibular agendado nesta quarta-feira, 7. Morador de Samambaia, o rapaz, de 25 anos, cursou dois anos de administração, na faculdade Anhanguera. O incentivo da namorada, Patrícia, estudante de agronomia, foi decisivo para que Ronie enxergasse o diferencial, no mercado de trabalho, de um curso voltado para o agro. “Sempre gostei dos assuntos do campo, mas, hoje, dá para perceber que as pessoas estão mais interessadas em se profissionalizar no agronegócio”, explica.

Ronie relembra que, há pouco mais de duas décadas, a família trabalhava com agricultura familiar, na zona rural de Correntina, município da Bahia. A falta de conhecimento e de cultura dos pais, aliada à ação de grileiros, acabou fazendo com que o pai, Martiniano, trocasse a propriedade e a atividade no campo pela perspectiva de trabalhar na construção civil, em Brasília. “Estou tendo uma oportunidade de seguir os passos dos meus pais, que vieram da roça, mas acabaram vendendo a nossa terra a preço de banana. Só que agora vou ter o conhecimento técnico para resgatar um pouco a nossa história, ajudar a família e também os outros”, comemora o rapaz.

Águeda Recio Y Alvarez Faúla, 26 anos, vive o sonho de 10 entre 10 recém-formados. A jovem se formou na primeira turma de Tecnologia de Gestão do Agronegócio, em 2016. Em janeiro de 2017, Águeda foi contratada pelo Instituto CNA, uma associação civil sem fins lucrativos, que realiza estudos e pesquisas sociais e do agronegócio, e desenvolve tecnologias alternativas para a produção e divulgação de informações técnicas e científicas, com foco no meio rural. Atualmente, Águeda atua em um projeto de pesquisa que prevê o plantio de cultivares no semiárido brasileiro.

A jovem, que tem dupla cidadania — brasileira e espanhola —, mora em uma chácara em Nova Betânia, nas imediações do PAD-DF (Programa de Assentamento Dirigido do Distrito Federal). No local, a mãe, Maria Del Mar, cuida da horticultura e da criação de equídeos. Em 2009, Águeda entrou no curso de Ciências Ambientais, na Universidade de Brasília (UnB), mas, após dois anos, trancou a matrículam porque chegou à conclusão de que curso não atendia às suas expectativas. “Quando a gente é mais nova, não tem certeza direito das coisas, mas entendi que Ciências Ambientais não era bem o que eu queria. O curso da UnB tem uma pegada mais ambiental e eu queria focar na área rural”, explica.

Quando saiu da UnB, a jovem começou a participar de capacitações em temas relacionados ao campo, boa parte deles no Senar. Até que, no início de 2014, descobriu que poderia fazer o curso superior em Tecnologia de Gestão do Agronegócio, com uma bolsa de estudos que cobria 75% das mensalidades, por causa de sua nota no Enem. “Hoje o campo é tecnológico e se busca uma maior eficiência na produção. Estamos saindo dessa cultura de que trabalhar no campo é uma atividade informal, realizada de qualquer jeito e sem estudos preliminares”, analisa Águeda.

Oportunidades

Danilo Silva Labes, 27 anos, está no quinto semestre do curso na Faculdade CNA. Quando se formar, o rapaz quer atuar na área de bolsa de valores, com foco no mercado futuro de soja. Essa é uma das opções de trabalho, mas o jovem vê inúmeras possibilidades para a atuação do gestor de agronegócios. “É um erro achar que, nessa região, o mercado de trabalho em agro é fraco. Existe um enorme cinturão verde em volta do DF, que está cheio de grandes empresas do agro e que demandam profissionais preparados para atuar em todos os segmentos”, enfatiza Danilo.

“Nós aprendemos muito com os erros, mas, se eu tivesse feito o curso antes, mesmo a distância, teria contribuído mais na administração das propriedades rurais dos meus pais e de outros membros da família”. O desabafo é de Lucimar Pereira Lopes, 43 anos, casada, três filhos, que se formou em gestão do agronegócio no fim do ano passado. Lucimar e o marido, Juarez, engenheiro, administram, a distância, uma propriedade de 230 hectares na zona rural de Contagem, Minas Gerais.

O casal, que já se dedicou à criação de gados de leite e de corte, trabalha, atualmente, em um projeto para a implementação de agricultura irrigada, com pivô central, para o cultivo de soja, milho e feijão, na sua fazenda, em Minas Gerais.

Profissional mais preparado

Em uma década, o Brasil pode ocupar a liderança na produção mundial de alimentos. A previsão de órgãos multilaterais internacionais, como a Organização das Nações Unidas (ONU), leva em conta a condição atual do país como segundo exportador do mundo, a grande extensão territorial de 8.515,767,049 km² e o potencial para a expansão das fronteiras agrícolas, sem desmatamento ou ocupação de áreas florestais. O setor é responsável por 37% dos empregos diretos no país.“A CNA está alinhada às novas tendências mundiais em formar profissionais multiplicadores para atuar no campo”, analisa Thiago Masson, professor das disciplinas cenários internacionais para o agronegócio, e métodos e técnicas de pesquisa em agro.

A profissionalização da atividade rural é um passo obrigatório do setor, que é líder em crescimento na economia nacional. Cada vez mais, o agronegócio exige profissionais bem preparados para avaliar projetos de investimentos, estratégias, operacionalização, logística e comercialização de produtos, entre outros temas, mas a Faculdade CNA não quer competir com grandes instituições de ensino de agronomia do país. “Queremos formar profissionais com uma visão holística de toda a cadeia produtiva do agro, dentro e fora da porteira, que conheçam legislação, ambientes regulatórios e políticas agrícolas”, explica o presidente da Faculdade CNA, André Sanches.

Técnicos

A formação para a atuação no campo pode ser feita, também, por meio do curso técnico em agronegócio, realizado na modalidade semipresencial, pelo Senar. A entidade oferta, gratuitamente, 3.020 vagas em 90 polos, distribuídos por 22 estados e no Distrito Federal, em 2018. O curso é bastante disputado. O prazo para a inscrição termina em 9 de fevereiro. Até a última sexta-feira, entretanto, 14.047 pessoas já tinham se matriculado no processo seletivo. Salvador, Brasília e Fortaleza são os polos com maior número de candidatos, até o momento.

No ano passado, o curso recebeu 14.039 inscrições. A procura foi bastante alta em várias unidades agropecuárias. Em Goiânia, a concorrência chegou a 19,7 candidatos por vaga. No polo de Sete Lagoas (MG), foram contabilizados 13,3 candidatos por vaga, enquanto em Gandu, município baiano de 30 mil habitantes, a concorrência foi de 12,3 candidatos por vaga.

O curso é reconhecido pelo MEC e pelo Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (CREA). Tem carga horária de 1.230 horas, divididas em 80% em ensino a distância e 20%, de aulas presenciais, realizadas em propriedades rurais, agroindústrias ou nos polos de apoio da rede do Senar. O agricultor familiar ou médio produtor e técnicos de assistência técnica e extensão rural têm prioridade de acesso às vagas.

A grande concorrência nos cursos relacionados ao agro, presenciais ou a distância, é uma realidade no setor que lidera a economia do país. Pesquisa realizada pelo Cepeaea/Esalq (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada / Escola Superior de Agricultura da USP), realizada no ano passado, indica que cresceu o nível de emprego no agronegócio para trabalhadores qualificados.

A tendência do mercado é continuar aquecido para os profissionais do campo mais instruídos, segundo avaliação do professor da Universidade de São Paulo, José Pastore, doutor honoris causa em ciência e PhD em sociologia. “Historicamente, o setor agropecuário perde trabalhadores devido à introdução de tecnologias mecânicas. Mas, mesmo assim, precisa de mão de obra para lidar com essas tecnologias, assim como as inovações químicas e biológicas. Nesse caso, as culturas tendem a ser mais intensivas em mão de obra e exibem o trabalho humano em maior quantidade e por mais tempo”, analisa. (MG)

"Historicamente, o setor agropecuário perde trabalhadores devido à introdução de tecnologias mecânicas. Mas, mesmo assim, precisa de mão de obra para lidar com essas tecnologias, assim como as inovações químicas e biológicas" José Pastore, professor da USP

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