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Brasil - Brasília - Distrito Federal - 26 de maio de 2018

Por Salin Siddartha. O que se oculta na polêmica sobre a Exposição QueerMuseu?

Por Salin Siddartha. O que se oculta na polêmica sobre a Exposição QueerMuseu?

Sejamos francos.

Por Salin Siddartha - 23/10/2017 - 11:13:58

Sejamos francos. Em minha opinião, algumas expressões artísticas do Queer Museu são obras de mau gosto. Embora o erotismo possa ser artístico sim (Pablo Picasso, os escultores gregos da antiguidade, os renascentistas, os neoclássicos e muitos outros o utilizaram de maneira magistral), o que se vê em algumas pinturas e desenhos da referida exposição é arte pornográfica, que rebaixa o sentido estético até um nível grosseiro.

Feita a ressalva, seria de bom alvitre que não se impedisse a visitação a tais quadros em ambientes fechados, caso contrário, a proibição só faria popularizar mais ainda o que os mistificadores desejam. Todavia é imprescindível vetar o acesso de menores de 18 anos a essas obras de arte, mesmo quando acompanhados dos pais. O mesmo vale para a propalada performance “La Bête”, em que o artista Wagner Schwartz se apresentou nu, no Museu de Arte Moderna de São Paulo. A performance, que passou a ser conhecida popularmente como “o homem nu”, não deveria ser representada para todas as faixas etárias, já que não é uma peça, como as esculturas, as pinturas e os desenhos o são, mas um ser humano vivo.

Para esclarecer melhor o que tenho a dizer, não se trata de o Estado exercer o poder de censura, o que seria abominável, e sim de utilizar a classificação indicativa da faixa etária apta a contemplar e interagir com as pinturas, desenhos e apresentações performáticas, tal qual se faz com as sessões de cinema e programas de TV, por exemplo. Até mesmo, porque não é democrático censurar obras de arte.

A arte de um povo e de uma época é a forma mais sofisticada do desenvolvimento civilizatório. Impedi-la de existir é atentar contra a própria civilização. Os argumentos dos que gostariam de apenar judicialmente os artistas (não importa, aqui, a qualidade do trabalho apresentado) são tão fascistas quanto os dos fundamentalistas que vivem a destruir terreiros de religiões afro-brasileiras e da intolerância talibã que extingue, em razão de segundos, estátuas e esculturas milenares. Portanto não é aceitável usar de medidas autoritárias para coibir a oportunidade de um povo presenciar a arte do seu tempo. Proceder como o Prefeito Marcelo Crivella, proibindo a exposição no MAR, só tem parâmetro com as ações repressivas de Stalin e Benito Mussolini.

Louvável foi Caetano Veloso quando afirmou, recentemente, que um pouco de conservadorismo se faz necessário à nossa nação. Essa declaração nos leva a revisitar o conservadorismo de Monteiro Lobato ao escrever o artigo “Paranoia ou Mistificação”, no qual desqualifica a maravilhosa exposição modernista de Anita Malfatti, no início do século XX. Porém, atenção: Caetano Veloso disse “um pouco”. Agora, daí a transformar o conservadorismo em ditadura estética, é o mesmo que curvar a liberdade de criação ante a mediocridade, conforme ocorreu a Hitler, que cunhou como “arte decadente” o expressionismo, ideologizando a concepção artística da “inteligentzia” do seu governo na perseguição e massacre nazista dos artistas alemães, na década de 30 e na primeira metade dos anos 40.

Apesar das mistificações de obras artísticas carentes de excelência técnica, que existem hoje e sempre existiram em todos os tempos (praticadas por oportunistas ou por autores de apuro formal discutível), existem ótimos artistas produzindo ótimas esculturas, pinturas, desenhos, fotos, murais, músicas, poemas, prosas, filmes, peças de teatro, ballet e performances. É fato notório que raros são os gênios em qualquer época; afinal, são necessários milhões de bons artistas para que surja um Van Gogh ou um Johan Sebastian Bach. Lamentavelmente, também existem aqueles que só querem provocar polêmica e chocar a moralidade vigente, já que, insipientes, desejam apenas aparecer.

Como gosto de enxergar a realidade que está por trás das aparências, creio que haja alguma questão política de fundo que busca, por intermédio desses conflitos pontuais de ordem estética, desvirtuar a atenção do brasileiro de assuntos pragmaticamente mais importantes e que o toquem mais seriamente.

Cruzeiro-DF, 23 de outubro de 2017

SALIN SIDDARTHA

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