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Brasil - Brasília - Distrito Federal - 19 de agosto de 2018


Por Salin Siddartha. O Brasil se esvai em crise

Por Salin Siddartha. O Brasil se esvai em crise

Paira, então, a incógnita de como os mecanismos de que a governança mundial dispõe intervirão. Apáticos é que eles não ficarão.

Por Salin Siddartha - 16/10/2017 - 00:43:45

O endividamento dos países do Terceiro Mundo presta-se a interesses escusos e torna-se um instrumento de enriquecimento ilícito dos países ricos e dos grandes especuladores do mercado financeiro, os quais, tanto uns quanto outros, têm sido beneficiados pela dívida pública mundial. É em prol dos interesses de ambos que se estabelece toda uma governança a condicionar todos os governos de todos os países da face da Terra.

 

Essa é a condicionante que subordina a política ao mercado, e não aos povos, e as ruas estão ficando cada vez mais longe dos governantes. Embora o Brasil atual seja o teatro onde transcorra uma das facetas mais perversas dessa trágica realidade, ela não é exclusividade daqui, mas um efeito da dominação global que tem vez desde o final da Segunda Grande Guerra e se espraia pelo início do século XXI. A dívida passou a ser um mecanismo de controle econômico e uma nova forma de colonização, de maneira que as políticas aplicadas pelos governos endividados são decididas pelos credores (afinal, quem paga a banda escolhe a música que ela toca).

 

A maioria das decisões é tomada no hemisfério norte e redunda em consequências pesadas para os países em desenvolvimento, opondo interesses conflituosos à maioria da população do Norte e do Sul. Os planos de ajuste estrutural adotados pelas economias dos países em desenvolvimento regulam e legitimam a apropriação das riquezas desses países em detrimento das populações locais. Resulta, então, que o rendimento anual dos 1% mais ricos da população mundial equivale ao rendimento dos 57% mais pobres do planeta; e o rendimento dos 5% mais ricos do mundo é 114 vezes superior ao rendimento dos 5% mais pobres.

 

Tal fio condutor das estratégias de dominação se emoldura em um quadro no qual os velhos partidos que tradicionalmente reivindicavam a defesa dos trabalhadores e da democracia estão em vias de desagregação, são abandonados nas eleições e se consagram agora, abertamente, a salvar o “establishment”. Praticamente em todo o planeta, os partidos de esquerda efetuam uma política de conciliação com os partidos da direita. Eis porque mesmo os movimentos progressistas se viram para o lado oposto, à medida que aceitam as regras do jogo.

 

Correntes de esquerda dos mais variados matizes repercutem a política da governança mundial para integrá-las às necessidades da globalização. Muitas delas consideram que já estão superados os princípios que fundaram os partidos trabalhistas e socialistas, sob a alegação de que o mundo mudou.

 

Acontece que, no Brasil, o presidencialismo de coalizão mantém uma relação fisiológica entre o Poder Executivo e o Poder Legislativo, operada por intermédio de amplas coligações. Só que a direita passou a crer que não precisa mais da intermediação dos partidos de esquerda, e prefere governar diretamente, porém os diversos setores das classes dominantes entraram em conflito, em parte pela diminuição da atividade econômica produtiva, em parte pela retaliação que se seguiu ao combate da direita aos partidos da esquerda, na sequência do julgamento do “Mensalão”.

 

A cisão no seio do capital rentista, empreiteiro, ruralista e comercial aprofundou a crise do regime político e institucional, acentuou a cisão dentro da direita e rachou o PSDB, tornando a situação brasileira fora de controle. E a Nação se degrada política, econômica e socialmente, estando em curso grave retrocesso de direitos sociais, humanos e trabalhistas.

 

A experiência historicamente corrupta e endêmica secular desta Nação sempre contemplou a ladroagem no interior do grande e médio empresariado, dos partidos e governos direitistas, dentro de um modelo de relativo comedimento, embora às vezes bastante extrapolado, num pacto de silêncio raramente interrompido por ações do Judiciário e alguns escândalos esporádicos. Contudo, a partir de Lula, esse padrão foi abandonado para dar origem a outro “modus operandi”.

 

Durante cerca de 13 anos, para defender interesses próprios, desde a mata amazônica, o Pantanal, o sertão e até os pampas, o coronelismo e as oligarquias sustentaram a economia e a política praticadas pelos governos do PT. Ocorre que o PMDB é a expressão do velho coronelismo e das pequenas oligarquias do interior do País. O envolvimento da cúpula peemedebista nos casos de corrupção é o exemplário que melhor demonstra a prática do vício coronelista e oligarca levada a cabo pelo fisiologismo do PMDB. Os governos do PT souberam explorar com mestria o caráter orgânico daquele partido, e, por sua vez, as lideranças peemedebistas souberam valer-se da aliança entre as duas congregações políticas, usufruindo dos bônus ilegais para incharem as contas pessoais, bem como distribuindo as benesses corruptas do poder aos seus aliados e aos oligarcas que se colocavam sob suas asas (enquanto isso, os dirigentes petistas concentravam suas ações de corrupção no investimento em uma colossal máquina partidária, ainda que, sem dúvida, muitos deles retirassem os dividendos dos malfeitos para locupletarem-se pessoalmente).

 

Restaram, de tudo isso, essa crise colossal e a impossibilidade de o chamado campo de atuação popular recompor-se em curto ou médio prazo. O terreno perdido pela esquerda exigirá dela uma reconfiguração das forças ditas progressistas, o que não será tarefa fácil.

 

De outro lado, Henrique Meireles e Michel Temer já declararam que o importante é satisfazer o mercado. É verdade que a equipe econômica do Governo Temer faz enorme esforço para ajustar a economia aos ditames da ordem mundial, intentando reformas que possam agradar o mercado financeiro internacional, garantindo-lhe maior presteza e volume para o pagamento dos juros da dívida pública do Brasil (o principal da dívida é impagável).

 

Mesmo assim, infelizmente, é inegável dizer que já estão postas as condições objetivas e subjetivas que costumam romper a ordem institucional: enorme desemprego, decadência das forças produtivas, redução da renda das classes, diminuição do peso do País no mercado mundial, perda da confiança da classe média em todos os partidos, perda da capacidade real de a classe dominante salvar o sistema e a possibilidade de a classe dominante dividir-se em frações.

 

Também é forçoso admitir que as eleições de 2018 serão um problema para o regime, pois, pela primeira vez, de forma explícita, o Brasil está dividido, e não surgiu um nome de unidade nacional capaz de estabilizar o País. O próprio PSDB, que deu início a todo esse processo, liderando o movimento pelo impeachment de Dilma Roussef, não tem um nome realista para colocar no lugar de Michel Temer. 

 

Portanto, ao invés de dar fim à crise do sistema institucional brasileiro, as eleições de 2018, tragam o resultado que trouxerem, instaurarão, talvez, o início do aprofundamento que fará romper radicalmente a ordem institucional da Nação.

 

Paira, então, a incógnita de como os mecanismos de que a governança mundial dispõe intervirão. Apáticos é que eles não ficarão.

 

 

 

Cruzeiro-DF, 15 de outubro de 2017

 

SALIN SIDDARTHA

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