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Brasil - Brasília - Distrito Federal - 23 de setembro de 2018


Por Salin Siddartha. A pós-modernidade e o hiperconsumo

Por Salin Siddartha. A pós-modernidade e o hiperconsumo

A fugacidade do consumismo apaga fronteiras de classe, gênero e geração e não permite o estabelecimento de ordenamentos e planos em longo prazo.

Por Salin Siddartha - 04/11/2017 - 19:25:23

O consumo hipertrofiado em consumismo modela novos hábitos na etapa histórica em que vivemos. A fugacidade do consumismo apaga fronteiras de classe, gênero e geração e não permite o estabelecimento de ordenamentos e planos em longo prazo.

 

O consumismo reconfigura-se muito rapidamente na finalização de desejos em momentos limitados. São “flashes” no mundo contemporâneo que não mantêm as aquisições efetuadas, porém as tornam descartáveis, escapando à nossa vontade numa desagregação ética.

 

Nesse aspecto, determinados espaços públicos caracterizam o encontro entre estranhos (seja nas ruas, nos shoppings ou nas universidades) que querem viver a fruição, mas não conseguem adquirir a visibilidade que desejam obter. É essa efemeridade que se torna um desafio para as instituições.

 

Há uma nova fase histórica do consumo: a época do hiperconsumo, em que o “sempre mais” serve de base à dinâmica consumista ilimitada da demanda de renovação, da mudança pela mudança. Há incertezas provocadas pela multiplicação de novos referenciais, que desorganizaram as próprias tradições em troca da lógica das marcas, das “grifes”.

 

O consumo se coloca numa oportunidade de escolha tal, que deve gerar um descarte contínuo, programando obsolescências por intermédio da propaganda das novidades. O ato da aquisição passou a ser tão gratificante em si que sobrepujou a própria posse e uso, e tudo, num átimo, fica ultrapassado, “démodé”.

 

A diferença existente entre a dinâmica da apropriação da produção social em seu caráter histórico tradicional e em sua fase pós-moderna está na relação do alcance do desejo e das necessidades com o essencial e o supérfluo. A forma como o mercado trata o desejo atendido, o desejo “criado” e o desejo por mais consumo estabelece a lógica de uma nova intersubjetividade fenomênica, ontológica.

 

A dimensão do prestígio sofre mudanças que fragilizam os encantos conservadores, transcendendo o consumo como prática da apropriação material para reificá-lo na política de escolhas cruciais à ocupação de poder social. A relação que os indivíduos mantêm com as mercadorias é metaforizada em escolhas políticas, como se candidaturas, opções e até mesmo ideologias fossem “produtos” a ser fabricados, vendidos e comprados em um “mercado” lúdico de fetichização.

 

Nesse contexto de fugacidade, de dinâmica de descarte, de produção de multiplicação fluida dos referenciais, dos “flashes” de momentos, estabelece-se uma ordem em que a quantidade de inovações tecnológicas nos leva a uma sensação de obsolescência do presente que requer novas e múltiplas estratégias coordenadas, porém incapazes de orientar a ação humana no controle dos processos de mudança da sociedade. Os sistemas de comunicação possibilitam tomadas de decisões de maneira instantânea, viabilizando eficiência na gestão política e no campo econômico, todavia a rapidez dos sistemas pós-modernos não consegue assegurar sucesso em longo prazo, resultando em crises sucessivas que aparecem e se transformam em grandes riscos, com a celeridade que os grandes meios de informação propiciam.

 

As oportunizações de setores periféricos competidores, atentos às crises de sistema, geram vantagem que, por sua vez, esvai-se velozmente. A competitividade estabelecida nesse patamar toma lugar como elemento central que propulsiona essa cultura consumista, produzindo-se como padrão que dita o ritmo da vida cotidiana. Numa agilidade integralizada, é quase impossível que não se autonomizem as flutuações de oportunidades às vezes inesperadas, mas que comprometem os vínculos do ordenamento jurídico, político e geopolítico em que, com enorme desgaste, se assentam a governança e os governos.

 

A sociedade está estruturando-se numa complexidade crescentemente simbolizada pela saturação. As demandas de convívio ganham relevância no preenchimento de novos papéis da democracia necessários para formar sensibilidade aos valores da tolerância, de modo a atender as exigências da fase histórica atual. Como mecanismo de inserção das demandas de convívio, a democracia participativa passa a ser ferramenta política equalizadora de um novo racionalismo, a partir do empoderamento local, que dê conta do protagonismo de que as individualidades populares anseiam para se tornarem visíveis em meio a tanta saturação.

 

O custo do gigantismo produtor de uma cultura consumista e padronizada é que o processo econômico deixa de responder às reais necessidades dos diversos indivíduos e grupos que compõem a sociedade. O reequilíbrio entre as necessidades e as soluções econômicas e sociais passa por uma nova dinâmica política de ação local que transforme o modo de tomada de decisões para o desenvolvimento econômico e social, atuando como articulador de um relacionamento entre o público e o privado, de maneira a efetivar resposta às verdadeiras demandas econômicas da sociedade.

 

A dificuldade de realizar uma reeducação ética é o custo desse gigantismo produtor da cultura padronizadamente consumista do pós-moderno, principalmente no Brasil e nas diversas nações que se descolonizaram em um capitalismo tardio. Uma nova cidadania pode emergir do somatório das atitudes democráticas participativas que tenham por agentes os diversos entes do movimento social em várias manifestações locais.

 

Um sistema de dominação hiperconsumista é um chocante ataque a uma práxis que reconcilie o sentido de humanidade presente na cultura de cada homem e de cada mulher. Uma reeducação ética, valendo-se das manifestações tradicionais culturalmente introjetadas nas pessoas, pode recuperar certos valores produzidos no passado humanista, necessários para a ressensibilização da contemporaneidade. O empoderamento das comunidades locais por intermédio de formas diretas de democracia é a grande saída para uma pedagogia da ética.

 

O gigantismo hiperconsumista ataca o meio ambiente natural, faz crescer o recalque psicossocial criado pelas desigualdades e não leva em conta o interesse público. Os esforços da sociedade têm de ser estimulados por políticas públicas estabelecidas pelo governo de maneira que o Terceiro Setor fique encarregado de promover a inclusão das parcelas da população não alcançadas pelos empreendimentos privados, defendendo-se, então, valores que garantam a igualdade e a justiça nas relações sociais.

Isso sim é que seria uma política capaz de recuperar a cidadania sequestrada pela desagregação dos valores sociais nesta era pós-moderna.

 

Cruzeiro-DF, 4 de novembro de 2017

 

SALIN SIDDARTHA

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