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Brasil - Brasília - Distrito Federal - 26 de maio de 2018

Por Miguel Lucena. Ninguém chora pela Somália

Por Miguel Lucena. Ninguém chora pela Somália

Já escrevi sobre isto e repito: o clamor das pessoas é sugerido.

Por Miguel Lucena*/Foto: AMISOM Photo / Tobin Jones - 19/10/2017 - 09:20:32

Mais de 300 pessoas morreram na Somália, após ataque com dois caminhões-bomba realizado sábado, dia 14, pelo grupo terrorista al-Shabab, informa o serviço de emergência local. O ataque é o maior registrado na história do país e já deixou cerca de 500 feridos.

No entanto, causa estranheza o silêncio observado nos meios de comunicação convencionais e redes sociais. Não se veem aquelas faixas de luto, as figurinhas com lágrimas caindo dos olhos e as manifestações indignadas de internautas.

Fosse o ataque na Europa ou nos Estados Unidos, com a cobertura completa em horário especial e nobre, já teríamos visto até caminhadas de hippies pedindo paz no mundo.

Já escrevi sobre isto e repito: o clamor das pessoas é sugerido. O sentimento demonstrado é, na maioria das vezes, superficial. Se não foi manchete do Jornal Nacional, então não foi nada.

O clamor popular não surge de um sentimento genuíno, mas de algo sugerido por terceiros. Vejo, também, que o julgamento moral das pessoas é nublado por filtros culturais ou ideológicos, conforme os interesses em jogo. Ninguém se escandaliza se uma cidade inteira morrer e o fato não for veiculado em horário nobre de televisão.

Considera-se normal o fato de as pessoas se matarem todos os dias nas ruas do Brasil, mas ganha ares de escândalo internacional a matança de bandidos perigosos e violentos nas cadeias, porque exibida à exaustão. O fato exige mobilização das autoridades, e a população se sente amedrontada, mas esses espasmos sentidos por todos são uma mistura de fingimento e sugestão. Fingimento de quem diz que vai fazer e acontecer, quando já sabia do problema e deixou para lá, e sugestão de quem só se espanta com o barulho anunciado.

Quando um bandido comete um crime pavoroso, para usar a famosa expressão do presidente Michel Temer, todo um aparato se volta para amparar o indivíduo indefeso e traumatizado pelas injustiças sociais. O próprio bandido finge estar convencido de que é uma vítima da sociedade, mas no fundo ele sabe que age por opção, movido por preguiça, ganância, inveja, despeito e ressentimento. No momento em que um policial comete um delito, ninguém pergunta se ele está passando por algum trauma, se tem um distúrbio psicológico ou se sente esmagado pelo sistema.

O julgamento moral, filtrado, transforma os mesmos seres em coitados ou imbecis, quando, na verdade, são apenas criminosos.

Miguel Lucena é delegado da Polícia Civil do Distrito Federal, jornalista e escritor.

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