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Brasil - Brasília - Distrito Federal - 19 de agosto de 2018


Pieguice, inveja e ruindade

Pieguice, inveja e ruindade

O sentimentalismo brasileiro costuma perdoar quem chora em público, ou pelo menos diz que chora, mas ninguém mais se ilude com lágrimas de crocodilo.

Por Miguel Lucena* - 14/02/2018 - 12:00:46

Após a queda do viaduto da Galeria dos Estados, no Eixão Sul de Brasília, o Palácio do Buriti deve ter emitido um comando para que os auxiliares do governador se pronunciassem apelando para dois sentimentos muito fortes entre os brasileiros: a pieguice e a inveja. Por trás de tudo, a manipular os mamulengos, a ruindade em pessoa.

Domingo, durante um almoço de um oposicionista do atual governo, um militante do PSB, que apareceu no local não se sabe como, pediu a palavra para dizer que a queda do viaduto e a situação dos servidores, cujos reajustes o governo não pode conceder, deixaram o governador muito abalado.

- Nunca tinha visto Rodrigo chorar – apelou o militante, as lágrimas quase descendo dos olhos, se não era cebola ralada, usando o prenome do governador para demonstrar intimidade.

Na sequência, a secretária Leany Lemos escreveu artigo cheio de tiques da área de planejamento, palavreado em mandarim, para dizer que governar é definir prioridades, como se as obras que garantem segurança à mobilidade urbana não o fossem.

As palavras da secretária se justificariam se a área social estivesse com a maior parte de seus problemas resolvidos, quando assistimos a penúria dos pacientes nas filas dos hospitais públicos, a esperar seis meses por uma consulta e nove anos por uma cirurgia, e 21 mil crianças sem creches no DF, no entanto não faltou dinheiro para nove passeatas gays realizadas ano passado e outras miudezas que poderiam ficar para depois, quando existissem recursos suficientes.

A pretexto de organizar a mente dos defensores do governo, fazendo um alerta de cuidado para os “amigos e amigas”, joga com a inveja alheia ao mencionar servidores com altos salários que reivindicam reajuste, a exemplo dos policiais civis. Ela distorce o pleito da categoria, que é a manutenção da paridade com a Polícia Federal, existente há décadas, retirada pelo governo socialista. Fala de bolsa cheia, porque, mesmo sendo funcionária de nível médio do Senado, ganha o dobro de um delegado em início de carreira, que é de nível superior e de formação específica em Direito.

O sentimentalismo brasileiro costuma perdoar quem chora em público, ou pelo menos diz que chora, mas ninguém mais se ilude com lágrimas de crocodilo.

*Miguel Lucena é Delegado de Polícia Civil do DF, jornalista e escritor.

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