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Brasil - Brasília - Distrito Federal - 20 de fevereiro de 2018

O Brasil em face do novo desafio chinês

O Brasil em face do novo desafio chinês

Eles estão vindo a todo o vapor para o Brasil.

Por Salin Siddartha - 01/10/2017 - 13:11:10

Está cada vez mais difícil aos chineses gerar lucro fazendo coisas baratas, e o nível do consumo daquela população já chegou ao seu limite. Para aumentá-lo, a China precisa fazer com que a renda média dos assalariados cresça, e a única solução possível para tal problema é investir em outros lugares para fomentar o consumo interno. E estão vindo a todo o vapor para o Brasil.

Apenas para manter os níveis atuais de consumo, a China necessita criar 10 milhões de postos de trabalho por ano em áreas urbanas, devido à grande migração do campo para a cidade em seu território. Tal êxodo laboral é causado pelo fato de a população urbana auferir o dobro da renda dos trabalhadores rurais, já que as fábricas possuem um regime produtivo gerador de maior riqueza para aquela pátria. Ocorre que, se as folhas de pagamento das camadas populares não se elevarem, o consumo, a produção e o crescimento da economia serão afetados, embora aquele país venha sofrendo sucessiva queda na taxa de crescimento.

A questão que atrapalha é que aumentar a renda das massas chinesas significa deixar de transferir para o Estado a riqueza da população da forma como isso acontece hoje: pagando-lhes o salário baixíssimo que os trabalhadores recebem para tornar atrativo o investimento das multinacionais no processo produtivo da indústria da China. É que, paralelamente ao investimento em infraestrutura, a acumulação de capital daquela nação comunista deveu-se a uma mão de obra de baixo custo. O aumento dos salários elevaria os custos de produção e desaceleraria a demanda estrangeira não só pelos produtos de lá, mas também por lucros dentro do território daquele país.

Por outro lado, é insofismável que a procura interna por trabalho industrial barato é maior que a imensa oferta de trabalhadores migrantes que saem do campo para as cidades, o que se reflete em uma tendência de aumentar os salários. Isso impacta uma conjuntura econômica em que o crescimento da indústria caiu pela metade, gerando uma capacidade de produção excedente, principalmente na indústria pesada. Consequentemente acontece um colapso de rentabilidade, aumentando a dívida das empresas públicas e afetando os bancos financiadores.

Outro requisito para o aumento do consumo é a oferta de crédito, mas os mecanismos fomentadores de financiamento ao consumidor são muito incipientes na China. Lá o uso de cartões de crédito ainda é limitado e o sistema bancário efetua morosamente suas operações.

Recentemente, a última plenária do Comitê Central do Partido Comunista Chinês (e ainda há quem aqui se ilude pensando que a China adentrou no sistema capitalista) determinou a necessidade de mudar o modelo econômico atual, a fim de absorver capital investidor e aumentar o consumo da nação. Estabeleceu também que o país terá de adaptar-se a uma diminuição necessária das taxas tradicionais de crescimento que vinha apresentando e passar a ter um “modus vivendi” econômico-financeiro com mais parcimônia.

Só em muito longo prazo é possível viabilizar essa mudança. Enquanto isso, haverá um crescimento em menor ritmo, sem os 12% a 13% de taxas anuais que até pouco tempo ela ostentava.

Seguindo a orientação do Partido Comunista e da burocracia, a China vem aumentando a participação em investimentos no exterior, notadamente na América Latina. Existe uma invasão de empresas chinesas no Brasil. São grandes empresas estatais que buscam efetuar fusões e aquisições fora do tradicional mercado europeu e norte-americano. Há cerca de 70 novos projetos de investimentos chineses no Brasil, inclusive no Distrito Federal, que giram em torno de 70 bilhões de dólares, ao passo que nossos investimentos naquela nação não chegam a 400 milhões de dólares,

Mantemos com eles um comércio intenso e acelerado – é o nosso principal parceiro comercial. Aquele país asiático responde por cerca de 15% de todas as importações brasileiras. O Brasil exporta mais de 40 bilhões de dólares para a China e importa cerca de 38 bilhões de dólares. As exportações brasileiras de “commodities” representam 80% dessa rubrica, enquanto importamos 95% da pauta em produtos chineses industrializados. Um terço das exportações de alimentos do Brasil se destina à China.

Infelizmente, o parque empresarial brasileiro não está em condições de competir, em nosso mercado interno, com os produtos chineses, considerando o crescente ritmo de importação que a rede varejista brasileira efetua com relação ao mercado chinês. Sem contar a desigual concorrência que já existe com as empresas da China que se instalaram aqui ou que estão em vias de se instalarem. A indústria de confecção brasileira, por exemplo, sucumbirá ao disputar compradores com a indústria chinesa.

Aqui se coloca o questionamento do motivo pelo qual as grandes empresas brasileiras não marcam significativa presença em território chinês. É que é difícil negociar com os chineses lá dentro, já que a economia comunista não age dentro de uma economia de mercado, mas sim sob os princípios que regem uma economia planificada, levando ao comprometimento da rentabilidade por causa da obrigação imposta pelo governo comunista daquela República Popular de que as empresas estrangeiras se associem com empresários locais e não repatriem livremente os lucros obtidos, porém reinvistam grande parte no próprio mercado chinês. Portanto é complicado lidar com um país cuja economia se caracteriza como, perdoem o conceito heterodoxo, um socialismo de mercado.

Cruzeiro-DF, 24 de setembro de 2017

SALIN SIDDARTHA

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