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Brasil - Brasília - Distrito Federal - 20 de outubro de 2018


Mimo Festival faz 15.ª edição modernista e sem barreiras

Mimo Festival faz 15.ª edição modernista e sem barreiras

Festival de cinema disputa com os palcos

Estadão Conteúdo - 22/07/2018 - 20:56:14

Os artistas portugueses expostos no Museu Amadeo de Souza-Cardoso, às margens do Rio Tâmega, pareciam ter dialogado com os músicos que subiam ao palco do Parque Ribeirinho ou no páteo interno da casa com a mesma intenção modernista, ainda que ninguém estivesse ali sob rótulo algum. Na tela, Julio de Almada Negreiros (1893-1970) fazia saltar um menino carregador de vinhos de rosto quente e alaranjado, de uma luz arrebatadora mas de corpo disforme pelo cubismo de Picasso. No palco, a cantora da Mauritânia Noura Mint Seymali e seus três músicos desfiguravam as matrizes do blues norte-americano para apresentá-lo em sua origem, oeste-africano, esculpido pelas escalas árabes de Noura e pela guitarra crua de Jeich Ould Chighaly. Na tela, Paula Rego mostrava os conflitos de uma Rainha Santa Isabel em traços coloridos e muita angústia, traindo a placidez e a benevolência dos santos. No palco, o português Rui Veloso fazia sua tradução do lamento fadista sob o conforto de solos de guitarras monumentais, traindo a fúria do rock and roll que lhe deu forma. Só atingiria a festa, como ensinaram os modernistas, quem primeiro passasse pela dor. 

Foram três dias de um festival que trai as perspectivas comerciais desde que aportou nesta pequena cidade ao norte de Portugal, há dois anos. Ao contrário do pessimismo inicial de parte da crítica, Amarante está lotada de turistas que chegam com o folder do festival nas mãos. Ainda com grandes shows previstos para a noite desde domingo, 22, sobretudo no final com o coletivo Hudson, do baterista JackDeJohnette, o Mimo Festival já tem imagens a deixar. A exposição dos modernistas portugueses ocupa um andar inteiro do museu onde alguns shows são realizados, um trabalho de parceria local que poderia ser reproduzido no Brasil. O período musical que vivemos, onde todos podem falar com todos, tem comprovado a teoria dos modernistas, muito antes dos tropicalistas, como em poucas eras. 

As apresentações do pianista Matthew Whitaker, o menino norte-americano cego de 17 anos ungido por Stevie Wonder; do grupo moçambicano mesmo de certo didatismo Timbila Muzimba; da jovem guitarrista de fado Marta Pereira da Costa; do pianista israelense Shai Maestro; e da formação instrumental jazzística jovem e fresca do Gogo Penguim, do Reino Unido, mostram um radar ajustado para o futuro e evita que o festival se feche em uma bolha étnica, nostálgica ou ideológica. Os brasileiros enfrentam um terreno curioso. Interessante ver o BaianaSystem sem a mesma recepção bombástica, testando a força de seu show sem subir ao palco com o jogo ganho. Os portugueses olham bem o mar antes de mergulhar. E bom ver que, no final, o Baiana ganha a noite não porque seu público já sai de casa sabendo em que momento deveria começar a pular, mas porque quem está à frente do palco se convenceu de que deveria tirar os pés do chão. O mesmo com Otto, que sai do calor de seu público para ganhar um novo depois de estudos dos dois lados. 

Dona Onete, ladeada pelo guitarrista Pio Lobato, tem uma força de palco que pode levá-la ao mundo todo. A rainha do carimbó traz um Brasil desconhecido por aqui, com uma música de acento binário que faz o europeu se perguntar onde está o samba. Ela acaricia sua plateia, pede pelos grupos que não têm espaço em outros festivais e sua doçura emociona: "Nosso povo precisa de alegria, principalmente as nossas crianças. Está difícil mudar isso, mas a gente vai conseguir." E fala de novo, para arrebatar: "A gente vai conseguir." O Dead Combo, uma quase unanimidade em terras portuguesas, está lançando um disco novo, Cine Odeon, e vai para a temporada da Mimo Festival no Brasil. Depois de Paraty (RJ) e Rio, capital, o festival chega a São Paulo pela primeira vez, dias 19 e 20 de novembro. A temporada termina de 23 a 25 do mesmo mês, em Olinda. 

Festival de cinema disputa com os palcos 

Força da programação das telas de Amarante tem vida própria     

O Festival de Cinema que corre paralelo aos shows e à exposição modernista na Mimo chega a causar angústia. A programação de Rejane Zilles pode bater em horário com bons shows e aí cabe ao público decidir. De espantoso, se viu na noite de sábado, 21, Betty, They Say I'm Different, do diretor Phil Cox, sobre a vida da cantora de soul e funk Betty Davis. Pessoas saíram chorando da projeção feita ao ar livre, perto dos palcos. No mesmo museu Amadeo de Souza-Cardoso, Marcio Debellian mostrou Fevereiros, sobre a vida de Maria Bethânia, na sexta. 

Duas belas opções estiveram nas telas na tarde de sábado. Primeiro, A Great Day in Paris, de Michka Saal, costura comoventes histórias de jazzistas que, para fugir da segregação racial dos Estados Unidos, migraram para a França nos anos 60 e 70. Esses músicos vão refazer uma histórica fotografia tirada originalmente há 50 anos, e a chegada deles ao local vai costurando a narrativa. 

Na sequência, Torquato Neto, Todas as Horas do Fim, de Eduardo Ades e Marcus Fernando, narra a vida genial e angustiante do poeta tropicalistas que tirou a própria vida aos 28 anos de idade. Uma personalidade pouco explorada, mas no documentário muito bem aprofundado em seus mistérios, graças a depoimentos generosos de Caetano e Gil. A última sessão de filmes seria feita na noite deste domingo, 22, com Elis, de Hugo Prata. 

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