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Brasil - Brasília - Distrito Federal - 24 de setembro de 2018


Joana Cannabrava: Como uma praia de nudismo me fez amar ainda mais o meu corpo

Joana Cannabrava: Como uma praia de nudismo me fez amar ainda mais o meu corpo

Eu era viciada em procurar defeitos no meu corpo e esse vício me custou caro

Joana Cannabrava/glamour - Foto: Reprodução - 31/03/2018 - 10:36:22

Ainda é março de 2018, apenas o terceiro mês do ano, e eu já vivi uma experiência antropológica completamente nova pra mim: fui a uma praia de nudismo. Enquanto pesquisava minhas férias, descobri que uma das praias mais bonitas da Paraíba se chamava Tambaba e sua parte paradisíaca praticamente intocada era uma praia de naturalismo. Sim, para entrar nesse paraíso, todos os seus visitantes devem ficar pelados. Se fosse há uns dois anos eu não iria considerar a possibilidade de ir, só que estavamos no verão de 2018 e depois de poucos segundos de vou/não vou, notei uma coisa bem maravilhosa: o meu corpo não era mais uma questão. E acabei concluindo: Por que não? É o verão da liberdade.

O medo do julgamento sobre meu corpo desnudo não passou pela minha cabeça. Nessa hora me dei conta que eu realmente vivo, respiro e transpiro uma nova verdade de que não existe um tipo de corpo para o verão e todos os corpos são dignos para aproveitar sem medo a estação mais quente do ano. Abrir mão dessas crenças que nos limitam só depende de nós.


É curioso que, até meus 28 anos de existência, eu só sabia enumerar o que queria mudar no meu corpo, o que não estava bom e eu não gostava em mim. Eu cheguei a adoecer por isso. Eu era viciada em procurar defeitos no meu corpo e esse vício me custou caro. Tive diferentes transtornos alimentares e vivia numa guerra com minha imagem, com a balança e com a comida.


Eu alternava momentos de dietas super restritivas com episódios de compulsão alimentar que me faziam querer comer até a migalha do pão que sobrou da cestinha devastada (em questão de minutos) do couvert. Depois de ter buscado ajuda profissional e tratamento para lutar contra meu transtorno alimentar, é preenchedor fazer parte de uma onda de  representatividade de mulheres com curvas fora do padrão de magreza imposto. No intervalo dos meus 28 aos 31 anos muita coisa mudou e eu só posso dizer: ainda bem!


Aos poucos, na minha jornada de terapia, livros e estudos voltados para o autoconhecimento, me peguei mudando a perspectiva de como eu lidava comigo. Naturalmente fui conseguindo valorizar as curvas ao invés das dobras, passando a enumerar o que eu gostava em mim ao invés do que tinha pavor e foi aí que os véus de ilusão começaram a cair. Foi com 28 anos que me vi bonita pela primeira vez. Foi então que consegui enxergar o que tinha - verdadeiramente - do outro lado do espelho.

Meu processo me permitiu transformar muitas coisas em mim (internas e externas), minha segurança foi uma delas. Aos poucos passei a praticar um olhar mais amoroso e acolhedor com o reflexo do espelho. Hoje enxergo que me sentir segura de mim foi a melhor consequência que eu poderia alcançar para minha autoestima. Eu não precisava me amar, mas foi libertador parar de me odiar - o amor próprio pelo todo foi uma consequência.


Quando notei que o meu corpo era tão livre que não era uma questão com relação a praia de nudismo, resolvi que iria à Tambaba. Iria celebrar esse verão sem padrões da forma mais exagerada que eu podia, num ambiente onde 100% da minha liberdade poderia ser aproveitada. Nunca antes me senti tão confortável na minha própria pele, uma praia onde eu só precisava desse corpo parecia uma grande forma de comemorar a conquista desses últimos 12 meses, onde comecei o ano tímida para mostrar uma nova relação com uma gordurinha das minhas costas num maiô e terminei o ano fotografando uma campanha de lingerie.

Ir a uma praia de nudismo nunca foi uma ideia tão boa, nunca foi uma forma tão literal para eu celebrar o que eu considero "body positive".


Com o discurso do empoderamento feminino em alta, acredito que nós mulheres podemos exercer um poder e uma liberdade sobre nossas vidas que nunca antes foi tão possível. Muita coisa ainda tem que mudar, mas aos poucos vejo que abrimos mão de certos julgamentos sexistas que antes nos cerceavam. Mulheres foram educadas a acreditar em crenças que as limitam. Para todo crescimento havia um limite, para toda liberdade havia uma proibição e sem notar, crescemos acreditando que por melhores que fôssemos, não seríamos o suficiente. Poder ir à uma praia de nudismo sem que isso signifique nada, não tenha nenhum duplo sentido, é um exemplo disso.


No momento em que sentei na minha canga - pelada, obviamente - olhei a minha volta e sorri. Em meio ao paraíso vi uma família com criança, um grupo de amigas rindo e casais de todas as idades. Todo mundo livre com seus corpos de verão. Tinham pessoas saradas, magras, curvilíneas, gordas, novas e velhas. Nenhuma mulher era menos do que um homem, nenhuma mulher era menos do que a outra mulher. Num ambiente onde todo mundo se vestia da segurança, a necessidade de se comparar caía por terra, consequentemente o julgamento alheio não era uma questão.  Me senti tão bem ao ver que eu fazia parte daquele grupo de turistas naturistas que estavam naquela praia, fingi costume ainda que fosse a primeira vez. Mulheres de todos os tipos juntas, sem a busca pelo perfeito ou metas inatingíveis. Apenas livres.


Não é preciso da nudez para experimentar essa liberdade, tampouco é preciso usar um biquini da estação ou um maiô que é a tendência desse verão. A roupa (ou ausência dela) importa pouco, o que realmente faz diferença para que nos vistamos com confiança é nos conhecermos tão bem a ponto que seja natural nos sentirmos suficientes e seguras de quem realmente somos. O olhar para o corpo físico muda quando a gente muda a forma de olhar pra gente.


 

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