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Brasil - Brasília - Distrito Federal - 20 de setembro de 2018


A história do traje de banho: o que isso tem a ver com a liberação feminina?

A história do traje de banho: o que isso tem a ver com a liberação feminina?

Conheça um pouco como foi a reação da sociedade na evolução das peças de roupa que as mulheres usam em praias ou piscinas ao longo dos anos

Por A Revista Da Mulher/ Foto Divulgação - 11/09/2018 - 20:11:01

A história do traje de banho feminino mistura-se com a emancipação da mulher ao longo dos anos. 

Da invenção do traje de banho até a polêmica do burkini na Europa, a forma como exibir - ou esconder - o corpo feminino em público, seja na praia ou piscina, sempre causou uma comoção na sociedade.  Quando Anette Kellerman criou um maiô de uma peça só para mulheres nadadoras, que antes precisavam usar calças pesadas para praticar o esporte, causou um escândalo. O uso do traje de banho inovador, considerado ousado para os anos 1907, levou a atleta e atriz australiana à prisão nos Estados Unidos.

Reprodução Pinterest

Com o biquíni de duas peças, não foi diferente. Criado em 1946 pelo estilista francês Louis Réard, o traje de banho foi usado pela primeira vez na icônica piscina do hotel Molitor, em Paris, onde a dançarina Micheline Bernardini foi a primeira mulher a desfilar com as duas peças. Detalhe: a bailarina de cabaré foi a única mulher que se dispôs a usar a nova criação, recusada por diversas modelos que consideraram inaceitável mostrar o umbigo.

Reprodução Cais da Memória

Na contramão dos escândalos causados pelas peças reduzida, exibindo cada vez mais o corpo das mulheres, atualmente, o traje de banho da discórdia é, pasmem, justamente aquele que cobre todo o corpo da mulher: o "burkini".

 

Reprodução Fashion Network

Usado por mulheres que seguem a religião muçulmana e optam por não mostrarem nem mesmo os cabelos em público, a peça foi proibida no verão europeu e gerou uma série de protestos. Será que o lema "meu corpo minhas regras" só é válido para quem quer mostrar e não cobrir o corpo? 

História do traje de banho feminino no Brasil

Diante desses fatos, a história do traje de banho feminino mostra o quanto a relação entre a moda e a emancipação - ou repressão - feminina andam juntas. No Brasil também é possível observar essa ligação. Ainda com pouca bibliografia sobre a história do traje de banho brasileiro, a designer com formação em estilismo pelo Senai-CETIQT, Giselle Barreto, tratou do tema em sua dissertação de mestrado na Escola Superior de Desenho Industrial (Esdi)/Uerj.

Para a especialista, as mudança nos trajes de banho femininos ao longo do tempo refletem uma certa dualidade em relação a emancipação feminina. De um lado, representam a conquista progressiva de maior liberdade de exposição do corpo feminino em público, uma maior liberdade de movimentos, menos pudores.

"Como ilustra o caso de Leila Diniz que, no início dos anos 1970, quebra tabus em relação à exibição da barriga de gravidez em público na praia, de biquíni. Mas por outro, as mulheres enfrentam uma cobrança cada vez maior com relação à aparência de seus corpos. Se atendem ou não a um determinado padrão de beleza, magro, jovem, atlético", diz Giselle. 

Em sua pesquisa, Giselle conversou com algumas mulheres da geração babyboom (nascidas no pós-guerra e que tornaram-se jovens na década de 1960). Moradoras de Copacabana durante a juventude, uma delas contou que o primeiro biquíni foi uma conquista. Ao fazer dezoito anos, ganhou de sua mãe algumas roupas, que não lhe agradaram. Foi à loja e trocou todas. 

"Escolheu uma saia e uma blusa (que na época eram consideradas roupas de uma mulher adulta) e um biquíni, pois, a partir daquele momento, queria demonstrar que passava a ser senhora de seu corpo. Minha percepção é que, para essa geração, a adoção do biquíni, teve muita relação com esse desejo de emancipação feminina, de externar isso para o mundo", ilustra a especialista.

Ditadura do corpo malhado para usar biquíni

Mesmo se, na prática, essa emancipação não se desse de fato. Vale lembrar que, nesse período (anos 1960), o biquíni era preponderantemente um traje de banho para mulheres jovens. "Com o tempo e o protagonismo assumido pela cultura jovem em nossa cultura — e de um corpo jovem como padrão de beleza — o uso do biquíni se difunde entre mulheres de diversas idades", completa Giselle.

A designer e estilista lembra ainda que para ser "digno" de se expor em público no Brasil, o corpo feminino precisa se adequar a determinadas características estéticas, o que torna essa "libertação" bastante opressora para as mulheres. Entre as décadas de 1980 e 1990, estabeleceu-se no país que corpo bonito seria corpo definido por exercícios na academia. E hoje culminou com os questionáveis perfis de musas fitness.

"Se nas origens o traje de banho de mar tinha como função esconder o corpo, ao longo de sua evolução passa, cada vez mais, a ser um adorno para esse corpo, que 'precisa' ser modelado para se adequar aos padrões estéticos dominantes", completa.

Traje de banho brasileiro vira referência mundial

Outro ponto interessante apontado por Giselle Barreto ocorreu quando ela, em 1990, trabalhava para uma famosa grife de trajes de banho do Rio de Janeiro. A marca decidiu vender biquíni com estilo brasileiro e não tentar fazer biquíni tipo "para gringo" (grandão) para exportar. Ao contrário do que comumente se via na época, quando se tratava de biquíni brasileiro para exportação. 

"A brasileira pode preferir um jeans, um vestido, um sapato de uma marca norte-americana, francesa ou italiana, mas dificilmente abrirá mão de usar um biquíni de marca brasileira. O nosso jeito de ir a praia, de expor/despir o corpo em momentos de lazer em público, é muito particular, diferente em relação a outras culturas", completa Giselle. 

Fonte: http://arevistadamulher.com.br/estilo/content/2479576-a-historia-do-traje-de-banho-o-que-isso-tem-a-ver-com-a-liberacao-feminina

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