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Brasil - Brasília - Distrito Federal - 21 de fevereiro de 2018

100 Anos do Falecimento de Émile Durkheim

100 Anos do Falecimento de Émile Durkheim

O mês de novembro deste ano marcará a celebração dos 100 anos de falecimento de Émile Durkheim

Por Salin Siddartha - 11/09/2017 - 23:49:52

A INFLUÊNCIA DO SOCIÓLOGO ÉMILE DURKHEIM NA OBRA DO LINGUISTA FERDINAND DE SAUSSURE

O mês de novembro deste ano marcará a celebração dos 100 anos de falecimento de Émile Durkheim, que, juntamente com Karl Marx e Max Weber, constitui o tripé em que se assenta a moderna Sociologia. Casualmente, ao reler antigo artigo do saudoso Joaquim Mattoso Câmara Júnior, deparei-me com a afirmação dele de que não houve influência da obra de Durkheim sobre o “Curso de Linguística Geral”, de Ferdinand de Saussure, livro precursor do estruturalismo e que inaugura a Linguística Moderna. Infelizmente, até hoje, a maioria das correntes da Ciência da Linguagem não cita e sequer reconhece tal influência. Baseiam-se no fato de que a publicação póstuma do “Curso de Linguística Geral”, organizada pelos discípulos saussurianos Charles Bally e Albert Sechehaye com base em anotações feitas ao longo das aulas oferecidas pelo linguista na Universidade de Genebra, não cita Durkheim na bibliografia.

Data vênia, discordando de tal opinião, escrevemos este texto buscando comprovar, embora de forma sumária, pelo pequeno espaço de que detemos para tal, o contrário. Como não se trata de texto com rigor acadêmico – apesar de situar-se no campo da Teoria do Conhecimento, é meramente um artigo jornalístico –, todas as citações entre aspas se referirão, doravante, a passagens citadas a seguir entre parênteses. A principal bibliografia de que me utilizo aqui é das seguintes obras: DURKHEIM, Émile. As Regras do Método Sociológico. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1974; e SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de Linguística Geral. São Paulo: Cultrix, 1974. Iniciando a aproximação dos elos existentes entre o sociólogo francês e o linguista suíço, passaremos, agora, a demonstrar a influência daquele sobre este.

Ao dizer que “com o separar a língua da fala, separa-se o que é social do que é individual” (Curso de Linguística Geral, p. 22), Saussure expressa o mesmo que Durkheim quando este assevera que “os fatos sociais são tanto mais suscetíveis de serem objetivamente representados quanto mais sensíveis se desprenderem completamente dos fatos individuais em que se manifestam” (As Regras do Método Sociológico, p. 15). Na mesma obra, Durkheim estabelecia que uma regra fundamental consiste em considerar os fatos sociais como coisas, e é assim que Saussure procura definir os fatos da língua, durkheimianamente como coisas, ao preocupar-se em definir “as coisas, e não os termos. É um mau método partir dos termos para definir as coisas” (Curso de Linguística Geral, p. 22), ao dar a entender que as coisas são o objetivo das leis sincrônicas, ao afirmar que “a lei sincrônica comprova um estado de coisas” (Opus cit., p. 109).

Durkheim postulou que “precisamos considerar os fenômenos sociais em si mesmos, separados dos estados conscientes que os representam” (As Regras do Método Sociológico, p. 74), e Saussure seguiu o conselho, defendendo que “a língua não está sujeita diretamente ao espírito dos que a falam” (Curso de Linguística Geral, p. 268) e que “a Linguística tem por único e verdadeiro objeto a língua considerada em si mesma e por si mesma” (Opus cit., p. 271). No que tange à estratégia metodológica, Durkheim enuncia que é preciso estudar os fenômenos sociais de fora, como coisas exteriores, porque é nessa qualidade que eles se nos apresentam, e também é assim que Ferdinand de Saussure apresenta os fatos da língua, afirmando que as alterações linguísticas “só podem ser estudadas fora do sistema” (idem, p. 102).

Quanto à pesquisa das causas, Durkheim escrevia que a causa determinante de um fato social deve ser procurada nos fatos sociais antecedentes, e não nos estados de consciência individual, exatamente como Saussure sabia que “a língua aparece sempre como uma herança de época precedente” (ibidem, p. 85), pois “a língua é um produto de forças sociais que atuam em função do tempo” (ibidem, p. 88).

Segundo Florestan Fernandes, “a ideia fundamental de Durkheim é que há entre os fenômenos sociais uma ordem própria” (FERNANDES, Florestan. Fundamentos Empíricos da Explicação Sociológica. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1967, p. 83), mas o sociólogo brasileiro poderia ter dito o mesmo, caso fosse linguista, sobre o “Curso de Linguística Geral”, haja vista lá encontramos escrito que “a língua é um sistema que conhece somente sua ordem própria” (Curso de Linguística Geral, p.32). Durkheim, antes mesmo de ter sido publicada a citada obra de Saussure, afirmou que “o sistema de sinais de que me sirvo para exprimir pensamentos (...) funciona independente do uso que dele faço” (As Regras do Método Sociológico, p. 74), e, posteriormente, Saussure escrevia: “a língua tem uma existência independente deles [dos indivíduos] (...)” (Curso de Linguística Geral, p. 27).

Durkheim cunhou o termo “consciência coletiva”, que se refere à totalidade de crenças e sentimentos comuns aos cidadãos médios da mesma sociedade, ou seja, foi o primeiro a usar tal termo; porém Saussure, por inúmeras vezes, utiliza o termo “consciência coletiva” – será, então, que Saussure nunca leu Durkheim? Será que, em virtude de ele não ter citado o sociólogo francês na bibliografia do “Curso de Linguística Geral”, apanhou esse termo por telepatia? Saussure, de fato, situa a língua dentro da consciência coletiva: “a língua existe na coletividade sob a forma duma soma de sinais depositados em cada cérebro. Algo que está em cada um deles, embora seja comum a todos.” (Opus cit., idem)

Durkheim explica a coerção social linguisticamente da seguinte forma: “não sou obrigado a falar o mesmo idioma que meus compatriotas, mas é impossível agir de outra maneira” (As Regras do Método Sociológico, p. 3), dando, assim, a deixa para o raciocínio saussuriano, que declara: “a língua, de todas as instituições sociais, é a que oferece menos oportunidade às iniciativas” (Curso de Linguística Geral, p. 88). Durkheim informa que o sociólogo deve provar que as sociedades estão submetidas às leis, opinião que se reflete na frase de Saussure, que diz: “toda lei social é imperativa e geral” (Opus cit., p. 107), e, depois, acrescenta que “há, na língua, leis” (Idem, p. 111).

Durkheim declara ser a analogia um instrumento preciso para o conhecimento e para a pesquisa científica; não menor importância consagrou Saussure a esse ponto de vista, dedicando, no “Curso de Linguística Geral”, dois capítulos sobre a analogia. Durkheim ensinava que “a vida existe no todo, não nas partes; apliquemos o mesmo princípio à sociologia” (As Regras do Método Sociológico, p. 45), Saussure, então, aplicou esse princípio à Linguística e afirmou que “a língua é um todo por si” (Curso de Linguística Geral, p. 17).

Após as comparações, aqui sumariamente estabelecidas, já é hora de a maioria dos linguistas perceberem que Saussure foi influenciado pelo pensamento sociológico de Durkheim dentro do pensamento linguístico. O linguista francês Meillet, grande companheiro de Saussure, com quem conviveu muito tempo, citava Durkheim, agradecido. Será, então, que Saussure desconhecia o sociólogo?

Durkheim também tinha preocupações linguísticas. O linguista Roman Jakobson escreve que “Durkheim tinha compreendido a superioridade crescente da Linguística sobre as outras ciências sociais e havia paternalmente aconselhado a construção de uma sociologia linguística” (JAKOBSON, Roman. Relações entre as Ciências da Linguagem e as Outras Ciências. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 64), e com um detalhe: antes de Ferdinand de Saussure.

Cruzeiro-DF, 10 de setembro de 2017

SALIN SIDDARTHA

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